Abaúna, o projeto

Abaúna e o lugar de fala.

Este personagem está em fase de eterna criação e ajustes.
Porque este personagem foi criado por um homem branco.
A linguagem escolhida para contar essa história, os quadrinhos, é uma linguagem criada por brancos, e existe grande chances de você, leitor, de um modo o outro ser alguém inserido na cultura branca.
Nestes tempos em que a expressão “lugar de fala” passou a fazer parte da sociedade, em uma legítima preocupação cultural de dar oportunidade para que todos os segmentos, sobretudo das minorias, fazer este álbum de quadrinhos poderia ser temerário.

Mas desde muito jovem tenho a exata noção de uma injustiça imensa: andamos pelas terras que indígenas já tinham nomeado, olhamos para a geografia que eles já tinha mapeado, comíamos e apreciávamos animais e vegetais que eles já tinha rotulado.
Caminhamos feito bárbaros sobre os destroços que fizemos sobre a cultura deles, sem perceber o quanto de nós só existe por causa deles, e o quanto fomos beneficiados pelo nos deram, seja por generosidade ou pela força. Há um imenso vale de desconhecimento que nos separa deles. Nossa cultura e nosso “mundo” parece distante, mas por baixo desse vale de ignorância, o que nos sustenta é o que eles deixaram.

Mas essa imensa ignorância está apenas do nosso lado.
Como diminuir esse fosso?

Além das preciosas pérolas de literatura e produção cultural indígena que nos atiram de lá (nomes como Ailton Krenak Daniel Munduruku, Davi Kopenawa por exemplo), que buscam, quase que desesperadamente, diminuir esse abismo, talvez um herói de quadrinhos com pegada meio pop, meio de aventura, que luta para negar a terrível invasão branca (que talvez hoje, no século XXI, seja a mais perigosa desde sempre) possa ajudar, modestamente, a diminuir este abismo entre leitores mais jovens.

Abaúna quer apenas negar este mundo errado em que vivemos, e talvez mostar para os jovens leitores que há outras formas muito mais bonitas, éticas e harmônicas de olhar pra vida, pra nossa cultura e pro nosso planeta.